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quarta-feira, 16 de maio de 2012

Jô por Acaso #17: O filme Xingu e a gauchada

Acompanhei a polêmica sobre a baixa bilheteria do filme Xingu no Rio Grande do Sul através do Jornal Zero Hora na semana passada e busco com este texto refletir sobre o fato.


Primeiramente me apresento: sou gaúcha, professora, assisti e gostei muito do filme Xingu. 

Quero responder ao desabafo do diretor de Xingu: nós, os gaúchos, não somos assim tão voltados para o próprio umbigo, a baixa bilheteria não tem uma relação direta de qualquer tipo de desprezo do povo do sul com o indígena e com a Floresta Amazônica. Nada disto! Talvez tenha outras razões para a ausência do público nas salas de cinema. Considero o filme relevante para a memória histórica de nosso país, talvez a divulgação do filme não tenha sido tão eficiente! Aliás, houve algum incentivo aos professores e ao público estudantil? Xingu deve ser visto e debatido nas aulas de história e cabe uma propaganda dirigida a este público.

Vale mencionar que a identificação do povo gaúcho com o latino-americano se reflete na bilheteria também, motivo pelo qual tanto nos agrada o cinema argentino e que este faça tanto sucesso entre nós. A verdade é que, por mais que tentemos negar, nos sentimos mais latino-americanos do que brasileiros, por posição geográfica, hábitos e costumes. O que não quer dizer nenhuma negação a nossa nacionalidade, nada mais é que uma constatação. Não se trata de arrogância ou prepotência, é a verdade nua e crua! E nada tem a ver com o filme Xingu que reconta nossa história como brasileiros. Nós somos brasileiros e também queremos conhecer ou rememorar nossa história, não viramos às costas para a Amazônia, e, muito menos, para o povo indígena que, inclusive, também viveu e vive por estas bandas aqui do sul do país.

Gostaria de convencer Meirelles a não abandonar a ideia de gravar Grande Sertão Veredas, pois a história de Riobaldo merece espaço nas telas do cinema, a qualidade estética da obra literária merece manifestação por meio de outra arte, independente de sucesso de bilheteria e, claro, nada de bombachas!

O povo gaúcho espera, ansiosamente, pelo filme que reconta nossa história baseada na obra literaria de Erico Veríssimo, a brilhante trilogia O tempo e o vento, mas tenho certeza que Grande Serão Veredas será bem vindo em nossos cinemas pela relevância da obra literária e porque o povo gaúcho é crítico e culto!

Por favor, Meirelles, não desconfie assim da gauchada, somos um povo faca na bota, somos latino-americanos e brasileiros. No entanto, pode acreditar, nossa arrogância tem se diluído com o passar dos anos, há muito não nos orgulhamos mais de nossas façanhas. Acima de tudo: somos brasileiros e sabemos apreciar arte!

Caro Meirelles: nos dê uma chance de provar nossa bilheteira na obra literária de Guimarães Rosa retratada na tela do cinema. Permita que a gauchada do campo e da cidade se emocione com a história do sertão brasileiro.

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Este é um post especial do TCHÊcnologia publicado toda quarta-feira, às 22h, na seção Jô por Acaso, editada por Joselma Noal.
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