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quinta-feira, 26 de abril de 2012

Panorama #8: Chaves, um fenômeno da televisão

Série de presença ativa no SBT completa 41 anos de existência em 2012 sem perder o fôlego, mesmo com reprises 


Roberto Biluczyk


- O que cê tá fazendo, Chaves?

- Estou caçando lagartixas.

Foi com esse diálogo que estreou no Brasil, em 1984, o seriado Chaves dentro do programa do palhaço Bozo. Desde então quase nunca mais saiu do ar. O garoto órfão que chega à vila do Sr. Barriga no aniversário de quatro anos da Chiquinha não mais abandonou a vida cotidiana do público brasileiro. Em sua chegada, trouxe consigo o super-heroi da América Latina e um médico esperto e atrapalhado: Chapolin e Dr. Chapatin.

Reza a lenda que Chaves chegou por engano, em meio a um pacote de novelas mexicanas. Analisado pela alta cúpula da TVS, nome com o qual era conhecido o SBT, foi rejeitado pela maioria. Apenas Silvio Santos deu seu voto de crédito à série produzida inicialmente em precários estúdios, sem as pompas e o dinheiro das grandes produções. Mas foi com humor inteligente, uma dublagem conveniente e uma história simples de retrato social que Chaves cativou a audiência da emissora paulista.

A série, juntamente com Chapolin, já ocupou diversos espaços na programação: hoje dispõe de pelo menos 150 minutos na grade diária, dispostos em horários como 13h45 e 18h15.

Contextos dos personagens

Chaves foi um seriado simples, mas dele pode-se extrair uma série de contextos sociais. Dona Florinda, senhora com posses, mantinha certo status, o que a permitia andar nas rodas da alta sociedade. Ela, entretanto, perde o marido marinheiro e a condição financeira. Obriga-se a criar o filho Quico em um tradicional cortiço. Lá pelas tantas, um professor passa a cortejá-la e ela reencontra o amor. Digno de uma novela, mas tratado com um humor que minimiza qualquer drama.

Seu Madruga, vítima do desemprego - e às vezes, da falta de vontade de trabalhar -, pode ser visto com um retrato comum. Tem dívidas e não pode honrá-las. Também viúvo, precisa lidar com a educação de uma menina.

O próprio Chaves, morador de rua abandonado pelos pais, adentra em um contexto maior. Mesmo com tanto sofrimento, toda a turma parece tirar força da fraqueza para divertir o público.

A série

El Chavo del Ocho estreou oficialmente em 20 de junho de 1971, na Televisión Independiente de México. O programa era derivado de pequenos quadros humorísticos outrora exibidos. Em 1973, a emissora se funde com o Telesistema Mexicano e forma a Televisa. Dessa forma, a série ganha o mundo e sua produção, mais recursos. Foi exibida como programa de 30min até 1980, quando passou a ser um quadro do programa Chespirito, até 1992. Roberto Gómez Bolaños, o criador da série, ainda conduziria o programa que levava como nome o seu apelido até 1995. Nesse meio tempo, produziu a novela Milagro y Magia, na qual Florinda Meza, sua esposa, foi a protagonista.

Desenho

Em 2006, surge na Televisa, Chaves em Desenho Animado. Como o próprio nome sugere, a nova versão traz a maioria dos personagens e reapresentações das tradicionais histórias. Chiquinha e Dona Neves não são retratadas no remake, uma vez que Maria Antonieta de las Nieves, intérprete da filha e da avó de Seu Madruga, alega ser a criadora das mesmas. Chespirito não aceita e move uma ação contra a ex-colega de elenco. O caso se estende na Justiça mexicana. Nos cerca de cem episódios lançados, o papel de Chiquinha é substituído por Pópis, Nhonho, Godinez e Seu Madruga, eventualmente. Em entrevistas, Antonieta alega que cederia a personagem ao desenho, porém Chespirito nega. Dessa forma, a nova série perde um dos elementos originais mais marcantes.

O elenco hoje

Como se sabe, os atores Ramón Valdez (Seu Madruga), Angelines Fernández (Clotide, a Bruxa do 71), Raúl Padilla (Jaiminho, o Carteiro) e Horacio Gómez (Godinez) já faleceram.

Apesar de morto há 23 anos, Ramón continua sendo admirado por fãs e pelo elenco, que sempre afirma em entrevistas que o ator, que deixou a série em 1979 e retornou por um breve período em 1981, é inesquecível. As frases ditas pelo personagem na série são constantemente reproduzidas pelos admiradores, especialmente nas redes sociais e em camisetas.

Chespirito (Chaves), Florinda Meza (D. Florinda), Maria Antonieta de las Nieves (Chiquinha), Carlos Villagrán (Quico) e Edgar Vivar (Sr. Barriga) deram recentemente o ar da graça em entrevistas realizadas por programas do SBT.

Vivar compôs o elenco da novela Alguna Vez Tendremos Alas, de Florinda Meza, em 1997, e de Para volver a amar, de Giselle González e Roberto Gómez Fernández, filho de Chespirito, em 2011, entre outras produções. Maria Antonieta também participa de novelas com certa frequência nos últimos anos, além de ainda interpretar a personagem que a consagrou. Villagrán, que abandonou a série em 1978, igualmente realiza apresentações com Quico. Florinda e Chespirito não produzem programas ou novelas atualmente. Por vários anos, fizeram teatro. Rubén Aguirre, o Prof. Girafales, com problemas de saúde, passou um longo tempo sem fazer aparições, mas vem retomando sua presença aos poucos.

Dublagem

A dublagem nacional era realizada pela MaGa - em um episódio, o crédito aparece, juntamente com a expressão "dublado nos estúdios da TVS”. Marcelo Gastaldi, dublador de Chaves e dono da empresa, faleceu em 1995. Desde então, vários dubladores ocuparam seu lugar, com destaque para Tatá Guarnieri, atual dublador nos DVDs e no desenho. Também dublaram personagens na série: Carlos Seidl, voz do Seu Madruga, Cecília Lemes e Sandra Mara, vozes da Chiquinha e Dona Neves, Marta Volpiani, que dublou D. Florinda e Pópis em todos os episódios, Helena Samarra, como Dona Clotilde, e Mário Vilela, interpretando Sr. Barriga e Nhonho. Outros dubladores foram, por exemplo, Potiguara Lopes e Osmiro Campos, como Prof. Girafales e o destacado Nelson Machado, como Quico.

Participações especiais 

Pelos mais diversos motivos, vários atores fizeram participações especiais no seriado. Regina Torné, por exemplo, interpretou Glória em 1978. A atriz segue trabalhando em novelas. Outra aparição marcante é a de Héctor Bonilla, real ator, galã de novelas, que arrancou suspiros de D. Florinda, D. Clotilde e Chiquinha quando o pneu de seu carro furou em frente à vila. Bonilla, a exemplo de Torné, não trabalha mais na Televisa, mas segue atuando em telenovelas no México e nos Estados Unidos.

Já em um episódio de 1979, a atriz Angélica María, citada inúmeras vezes no decorrer das temporadas, aparece no papel de uma aluna chamada Yara, em cena isolada, na escolinha do prof. Girafales. Na ocasião, Angélica transitava pelos programas da emissora a fim de promover a novela que levava o nome da aluna. Hoje, a atriz trabalha no canal norte-americano Telemundo. Ao responder uma pergunta do professor, Yara pede para ir ao banheiro e nunca mais volta. A cena é curiosa e você pode conferir a seguir:



América celebra a Chespirito

Em 11 de março de 2012, a Televisa preparou um especial continental a fim de celebrar os 83 anos de Chespirito e os mais de 40 anos de serviços prestados à televisão mexicana. Com a presença de Rubén Aguirre, mostrando-se mais recuperado, Edgar Vivar, esbanjando saúde em sua nova condição física, e Florinda Meza, prestando homenagens ao marido, as festividades foram comandadas por Thalía e contaram com a breve presença de Bolaños, que não se sentiu bem durante a cerimônia e usou respiradores durante todo o tempo.

Veja a apresentação de Thalía no “América Celebra Chespirito”


http://youtu.be/q1iw2aaRJqU

Mesmo com quase 41 anos de existência, a série continua rentável e agradando a novas gerações. Um fenômeno da televisão.

Veja também:

Abertura de Milagro y Magia



Encerra-se hoje a primeira temporada da coluna “Panorama”, no TCHÊcnologia, no ar desde 19 de janeiro de 2012. Aos leitores, agradeço a audiência e ao Daniel Pigatto, agradeço a oportunidade e o espaço cedido no site, além da confiança durante esses meses de parceria.


Este texto é parte de um projeto especial de 8 edições dentro do TCHÊcnologia produzido por Roberto Biluczyk (@RobertoBil), estudante de Comunicação Social (Hab. em Jornalismo) pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Confira textos anteriores da coluna através da tag Panorama ou no link http://bit.ly/tchepanorama
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