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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Panorama #3: Novelas mexicanas: trinta anos de destaque em terras tupiniquins

Amadas por uns e odiadas por outros, as produções dramatúrgicas da América Latina ocupam um lugar especial no cenário televisivo nacional 

Roberto Biluczyk
O sucesso de Carrossel foi destaque na
Revista Veja em 1991

Arte e cultura ocupavam, a princípio, dentro da sociedade comum, um papel mais elitista. A literatura, por exemplo, era privilégio das elites. Com o fim da Idade Média e o surgimento da prensa, a prática foi se popularizando, adentrando-se em novas camadas sociais. Outra forma de cultura corrente nesse tempo todo foi - e continua sendo - o teatro, desenvolvido também por grandes escritores, que levaram suas obras aos palcos. O aparecimento do rádio proporcionou que as peças e as ideias literárias e românticas dos escritores de livros fossem narradas e interpretadas artisticamente por atores e locutores, conquistando audiência maior. Automaticamente, com a televisão, o formato ganhou rostos e ações visíveis.

O surgimento da telenovela

Surgido a partir das radionovelas, o gênero televisivo abrange histórias de diversas origens. Cuba foi o berço de escritores como Felix Caignet, Gloria Magadan e Inés Rodena, por exemplo, que desenvolveram histórias que até hoje vem sendo regravadas ou recordadas em diversas partes do mundo.

Uma vez implantado o formato, as novelas nunca deixaram de fazer sucesso. No Brasil, a primeira produção foi Sua Vida me Pertence, transmitida ao vivo na TV Tupi. Posteriormente, com 2-5499 Ocupado, a Excelsior lançou a novela diária no país.

Já no México, outro grande celeiro dramatúrgico em televisão, a primeira novela a ser realizada foi Senda Prohibida (1958). A anti-heroína da história, Nora, interpretada pela atriz Silvia Derbez, criou tanta polêmica que a sua intérprete precisou de escolta de seguranças na saída do set.

Novelas mexicanas no Brasil

Em 1982, o SBT, em estratégia até então inédita, levou ao ar a primeira novela dublada. Os Ricos Também Choram, produção de 1979 protagonizada por Verónica Castro e Rogelio Guerra, escrita por Inés Rodena, logo se configurou em um grande sucesso por aqui, da mesma forma em que agradou o público em seu país de origem e em vários outros. A protagonista, também cantora, visitou o Brasil algumas vezes após a novela. A produção de Valentin Pimstein marcou expressivos pontos, chegando a incomodar a Rede Globo. Veja a abertura original da novela:



Em 1991, a consagração definitiva. Em parceria com a Televisa, o SBT importou novas produções. Logo , "a turma do sombrero" abalou novamente as estruturas do cenário televisivo nacional. E foi justamente com Carrossel, novela infantil escrita originalmente por Abel Santa Cruz, que um segundo topo foi alcançado pela emissora de Silvio Santos.

Com altos índices de audiência, encantando crianças, jovens e adultos, Gabriela Rivero, a Professora Helena - originalmente Maestra Jimena - visitou o país e foi, inclusive, recebida pelo presidente da época, Fernando Collor, com quem desceu a rampa do Palácio, em Brasília.

Maria Rubio, Catalina em
Ambição (Cuna de Lobos) (1986)
Rosa Selvagem, a primeira do novo ciclo de novelas, protagonizada por Verónica Castro, serviu de atração aos velhos fãs que a curtiram em Os Ricos. Já Ambição, protagonizada por Diana Bracho e Maria Rubio, inovou com maior presença de cenas externas. Rubio, interpretando a vilã Catarina Creel, chamava a atenção pelas maldades e pelo tapa-olho combinando com a roupa.

A jornalista Françoise Guimarães conta que antes de conhecer a vilã Catarina, de Ambição - originalmente, Cuna de Lobos - ela detestava as novelas estrangeiras. Acostumada com as grandes produções nacionais, não entendia como poderia agradar a alguém uma novela com cenários escuros e jardins feitos em estúdio. "Quando vi a primeira cena de Ambição, percebi que as coisas na Televisa haviam mudado. Agora havia externas e até cenas de ação", relata Françoise. “Há vinte anos, quando comecei a gostar das novelas, percebi nova realidade sobre o México e notei que eles têm atores e atrizes, como Magda Guzmán e Maria Rubio, de talento equivalente aos nossos. O preconceito contra as novelas é completamente infundado. Fico indignada quando ouço alguém criticar, muitas vezes sem conhecimento real”, completa.

O auxiliar administrativo Thiago Santos conta que conheceu as novelas através de uma tia. "Lembro da novela Carrossel, que fez muito sucesso e me rendeu o apelido de Cirilo", conta.

Eduardo Capetillo e Thalía,
protagonistas de Marimar (1994)
Em 1996, a atriz e cantora Thalía surge na telinha da emissora para estrelar a trilogia das Marias. Maria Mercedes, a bilheteira, Marimar, a imunda da praia, e Maria do Bairro, a catadora de lixo, novamente elevaram os índices da emissora paulista, trazendo foco e repercussão. "Sem dúvida as novelas que mais me chamaram a atenção foram essas. Graças a elas me tornei fã da Thalía", relata Thiago, que adota o sobrenome da atriz nas redes sociais. "Também acompanhei novelas da América Latina, exibidas pelo SBT e por outros canais, como a Band". Sobre o preconceito sofrido pelas novelas, Thiago opina que o mesmo foi implantado pelas mídias maiores, com medo de as produções baterem os seus números já consolidados.

Com A Usurpadora, protagonizada por Gabriela Spanic, o SBT conseguira novo êxito. A novela cativou novos fãs e atraiu a públicos específicos que até hoje se recordam da marcante vilã Paola Bracho - e de como ela conseguiu colocar uma irmã gêmea em seu lugar na mansão da Vovó Piedade - e curtem as cenas pela internet.

Thiago e Françoise concordam, afirmando: O YouTube mudou o perfil do fã, que hoje pode assistir grande variedade de novelas sem depender de nenhuma emissora. Inclusive, as que não foram exibidas por aqui.
Gabriela Spanic foi Paola Bracho
e Paulina Martins em A Usurpadora

Televisa e SBT já se separaram várias vezes. Apenas o campeão Chaves permanecera inabalável em todos esses anos. Porém em 2011, com a reprise de Marimar, o poder das novelas volta a ser discutido. No dia 12 de dezembro de 2011, a audiência da trama alcançou 10 pontos, superando Globo e Record - e fazendo esta última mexer na grade, eliminando programas. "O problema do SBT foi, em determinada época, ter abusado das novelas. Saturou o público. Para mim, as novelas nunca perderam a audiência em si, ela estava apenas descentralizada. Basta ver que a CNT, nos lugares onde tem melhor cobertura, alcançou bons índices com novelas latinas, recentemente", finaliza Thiago.

As novelas mexicanas, por mais preconceito que sofram, por parte dos críticos de televisão - ou fãs de novelas nacionais -, continuam ocupando um lugar de importância e destaque no panorama televisivo e cultural.

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Na próxima edição: O caminho do futuro: estudantes deixam suas cidades para estudar

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Este texto é parte de um projeto especial de 8 edições dentro do TCHÊcnologia produzido por Roberto Biluczyk (@RobertoBil), estudante de Comunicação Social (Hab. em Jornalismo) pela Universidade de Passo Fundo (UPF). Confira outros textos da coluna Panorama quinzenalmente às quintas-feiras.


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