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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Jô por Acaso #2: Mães e micos

Licenciada e Mestre em Letras sempre acreditei dominar bem a linguagem e não imaginei ser surpreendida por incompreensão por parte do meu interlocutor, isto até minha filha entrar na adolescência.

Prometi, como mãe, a não causar problemas na festa da minha filha, ou seja, não fazê-la pagar mico. E juro que me esforcei para tanto, não fosse a danada da linguagem!


Deixei a gurizada no terraço e me dirigi ao segundo andar, conforme combinação familiar estabelecida anteriormente, Pois, estava eu, solitária e feliz, na tranqüilidade da leitura do jornal dominical, quando um grupo de meninos desce a escada, correndo e me chamando com voz desesperada: Tia, Tia, tem gente se pegando lá em cima!

Bem, diante do apelo a minha presença na festa, lá fui eu, subindo as escadas já aos berros como imaginava que deveria ser minha entrada triunfal neste momento diante da solicitação do grupo. Não perguntei nada a ninguém, nem quem estava se pegando, nem onde, nem se tratava de soco, tapa ou pontapé, subi gritando e assim permaneci, acho que disse algo como: Vão parar de palhaçada aqui na minha casa, não quero ninguém se pegando, afinal vocês estão perto da sacada, imagina se alguém cai, como vou entregar vocês para os pais, em pedacinhos? Comportamento, hein, e sem palhaçada aqui! Percebi o olhar arregalado de alguns, mas realmente acreditei ter dado o meu recado de forma correta, desci leve, com a consciência limpa, com aquela sensação de leveza a que somos tomados quando acreditamos ter feito a coisa certa. Pensei fui chamada e respondi à altura. Dormi tranquila e cansada de arrumar a bagunça do final da festa e só fui entender no dia seguinte o meu problema de linguagem ao ser indagada por minha filha: Mãe, o que tu disse para fulaninha e pro fulaninho? Por questões éticas não devo divulgar os nomes. Repeti a minha filha o que havia dito (vide final do terceiro parágrafo). Podem imaginar a cara da minha filha, com as mãos na cabeça: mãe, eles não estavam brigando, eles estavam se agarrando, se beijando, se pegando, pô!

É, devemos ter muito cuidado com os verbos, eles são traiçoeiros, até para quem acha que domina e vive da linguagem, fazer o que né? Mãe de adolescente sempre acaba pagando mico. Coisas da vida!

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Este é um post especial do TCHÊcnologia publicado toda quarta-feira, às 22h, na seção Jô por Acaso, editada por Joselma Noal.
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